As políticas de câmbio administrado (fixado pelo governo ou através de bandas cambiais) que foram utilizadas durante muitos anos no Brasil tinham a função de garantir a manutenção da taxa nominal, porém eram vulneráveis a ataques especulativos, a variações da taxa de câmbio real e acabavam sempre culminando em crises cambiais como a vivida no Brasil em 1998.

Atualmente no Brasil o uso da política de taxas de cambio flutuantes (que já tinha sido usada no período anterior ao câmbio fixo e foi ressuscitada) funciona como um dispositivo automático para o ajuste de distorções comerciais entre os países com os quais nos relacionamos comercialmente e permite que o governo possa gerar superávits comerciais e eventualmente aumentar as nossas reservas cambiais.

Quando se pensa no valor de alguma coisa, uma cotação seja ela qual for, deve-se pensar no conceito de raridade. Quanto mais raro for alguma coisa, maior sua cotação ou o seu valor (velha lei da oferta e da demanda). O que vivemos hoje é uma enxurrada de dólares no mercado brasileiro, fazendo com que a moeda seja menos rara e, portanto, menos valiosa por aqui. Um dos principais “culpados” por esse excesso de entrada de dólares em solo nacional é o FED (Banco Central Americano – Federal Reserve) e sua política monetária expansionista, que na tentativa de estimular a economia dos EUA promoveu um excesso de liquidez global injetando 600 bilhões de dólares no mercado americano e esses recursos se espalharam pelo mundo em busca de maiores rentabilidades. As taxas de juros nos países desenvolvidos já estão próximas de zero, o que naturalmente já faz com que os investidores desses países procurem maiores rentabilidades em títulos de países emergentes (que pagam juros mais altos) para diversificarem suas carteiras.

Aqui, investidores, leia-se fundos de pensão e fundos de investimentos, dos países centrais que intensificaram essas compras dos nossos títulos, principalmente após as agências de classificação de risco (rating) terem elevado nosso status a grau de investimento. Muitos fundos internacionais possuem, em seu regulamento, a autorização para compor em suas carteiras, títulos de países classificados somente com a recomendação “investment grade” por essas agências. Bom, como não há almoço grátis em tempos de economias globalizadas, quem paga a conta são: nosso balanço de pagamentos, nossas empresas exportadoras que perdem competitividade de seus produtos lá fora, produtos locais que não conseguem competir em solo nacional com os importados, ou seja, um efeito desorganizador e perigoso.

O governo vem fazendo o possível nesse cabo de guerra com o mercado em relação à cotação do Real frente ao dólar. Recentemente errou avisando previamente que iria ampliar o prazo do IOF sobre os empréstimos externos. Ao realizar o “aviso prévio” ao mercado, o governo estimulou uma corrida à captação de recursos lá fora e quem tinha somente uma intenção, tratou de fazê-lo antes da implantação efetiva da sobretaxa, acarretando uma apreciação maior ainda do real frente ao dólar e agravando ainda mais o problema. Essa medida visa conter a arbitragem (agentes que captam recursos no exterior a juros baixos e emprestam a juros altos no Brasil), desencorajando a tomada de crédito no exterior sem comprometer o IED (Investimento Estrangeiro Direto) que é o investimento produtivo de longo prazo que gera empregos e legados à nossa economia.

Os contratos futuros de “swap cambial reverso” em que a mesa de câmbio do BACEN faz uma operação de troca comprando dólares no mercado futuro e remunerando a outra ponta com uma taxa de juros fixada previamente, estão sendo usados como instrumento de política cambial para tentar fazer com que o dólar ao menos pare de cair. Nesse leilão, o BACEN faz com que a cotação futura do dólar suba e estimule outros investidores a seguir com essa mesma movimentação de compra. São medidas pontuais, mas que não resolvem o problema.

O mercado esperava medidas mais enérgicas do governo como as chamadas quarentenas para os fluxos de investimento. Como disse o ministro Guido Mantega: “É melhor termos excesso do que falta de fluxo de dólares”, se referindo ao nosso passado recente.

Certa vez em uma palestra, o ex-presidente do BACEN Henrique Meirelles contou que em uma reunião com diversos banqueiros centrais de muitas nações, um deles perguntou a todos os outros qual seria a real função das taxas de câmbio entre os países e muitos argumentaram suas teorias acadêmicas relacionando-as com a função de corrigir distorções comerciais entre as nações e no final o banqueiro que fez a pergunta disse: – “A verdadeira função das taxas de câmbio é fazer com que os economistas sejam mais humildes”, tamanha a imprevisibilidade nas projeções dessa variável econômica.

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