** Continuação da entrevista de Ratan Tata à Revista EXAME. CONFIRA!!!

EXAME – Pela primeira vez, o investimento de empresas indianas no exterior é maior do que a de empresas estrangeiras na Índia. O país ficou pequeno para as empresas indianas?

Tata – Em 2000, 2001 a economia da Índia passou por um momento difícil onde muitas das nossas empresas sofreram com queda nos lucros ou passaram a dar prejuízo. Naquela época percebi que a gente estava dependendo apenas de uma economia, a indiana. Se ela passasse por uma crise, a gente enfrentaria dificuldades também. Não tinha para onde correr. Percebi que a gente deveria levar nossos negócios para mais de uma economia – o que nos levou à internacionalização. Começamos a analisar a possibilidade de investir e de operar em diferentes países. Depois da aquisição da Corus, cerca de 50% do nosso faturamento vem do exterior. A intenção sempre foi espalhar o nosso risco para mais de um país. Se o mercado inglês cair, talvez a economia da África do Sul ou da América Latina possa nos manter no azul.

EXAME – Que tipo de oportunidades o Tata Group procura no exterior?

Quando pensamos em aquisições, estamos em busca de oportunidades que preencham um vácuo que eventualmente tenhamos, que possa nos dar uma tecnologia que não temos ou que aumente a nossa presença num determinado país. Não compramos empresas porque queremos ficar maiores ou para acabar com a concorrência. Outra coisa que procuramos no exterior são lugares para montar fábricas, como é o caso da Argentina, Brasil e África do Sul que vão receber investimentos da Tata Motors.

EXAME – Comprar empresas no exterior é a melhor forma de crescer e ser respeitada no mercado global?

Tata – Não. Montar fábricas no exterior também é uma forma de crescer.

EXAME – Mas o senhor está de olho em novos mercados, como o etanol?

Tata – Já estamos investindo em etanol. Acompanhamos a produção de etanol com base em milho nos Estados Unidos ou cana-de-açúcar no caso do Brasil e, eventualmente, da Índia. Mas estamos mais de olho no E85. Temos feito muita pesquisa em biocombustíveis. Montamos até um laboratório para pesquisas o assunto na Índia.

EXAME – A compra da Corus foi a maior de uma empresa estrangeira por uma companhia indiana. É um símbolo da crescente influência da Índia?

Tata – A compra da Corus foi a compra de uma empresa que fazia sentido no nosso plano de crescimento. Queríamos aumentar a nossa presença na Europa. Não foi símbolo de nada, mas transformou-se num problema nacional. As pessoas aqui na Índia torciam pela nossa vitória ou derrota, como num jogo de críquete. Infelizmente, a CSN saiu derrotada nessa partida.

EXAME – O senhor esperava que os brasileiros dariam tanto trabalho na disputa pela Corus?

Tata – Não. Foi uma grande surpresa. A gente foi obrigado a pagar muito mais pela Corus por causa da concorrência dos brasileiros. Pagamos um bilhão de dólares a mais pela empresa. Mas valeu a pena. Se eu quisesse comprar a Corus daqui três anos, ela não estaria disponível e, se estivesse, custaria muito mais do que pagamos. Ao invés de desembolsar um valor x, pagamos um valor x mais um bilhão de dólares por um negócio de 20 milhões de toneladas de aço por ano. Daqui a dois anos, a Corus vai valer x mais dois ou três bilhões de dólares. No longo prazo, acho que foi um ótimo negócio.

EXAME – Ainda existe preconceito quando uma empresa de um país subdesenvolvido compra uma outra de um país como a Inglaterra?

Tata – Tenho certeza de que existe, principalmente quando a empresa que está comprando é de um país que é uma ex-colônia. Mas, no geral, nossa experiência com aquisições no exterior tem sido muito boa. No caso da Corus, um grupo de representantes do sindicato dos trabalhadores veio conhecer a fábrica da Tata Steel em Jamshedpur e as primeiras reações foram muito boas.

EXAME – Como mudar essa imagem?

Tata – Eu acho que a melhor maneira de mudar essa má impressão é fazer com que mais e mais aquisições como essa aconteçam até um ponto que esse movimento será natural.

EXAME – Estudo do Boston Consulting Group mostra que não pára de aumentar o número de desafiantes globais, multinacionais de países emergentes que estão comprando empresas tradicionais dos Estados Unidos ou Europa. A que o senhor credita essa mudança?

Tata – É fato que várias empresas de países emergentes estão se internacionalizando. Na maior parte dos casos, essas empresas estão aproveitando uma oportunidade para ir para o exterior. Elas superaram todos os problemas que enfrentavam e hoje são grandes o suficiente para crescer fora dos seus próprios países. Acho que é isso que está acontecendo. O mesmo aconteceu no passado em países como Alemanha e Japão.

EXAME – Qual é a importância do Brasil nos planos do grupo Tata?

Tata – É um mercado que tem um potencial muito grande. A Índia tem uma afinidade natural com o Brasil em termos de estilo de vida, por exemplo. O único lado negativo do Brasil é a distância. Se estivesse onde hoje fica Cingapura, acho que já teríamos mais negócios no país.

EXAME – Que outras empresas do grupo podem chegar ao mercado brasileiro nos próximos anos?

Tata – Uma delas é a Tata Motors. Um dia a gente espera produzir carros no Brasil.

EXAME – Seria uma parceria com a Fiat, como no caso da Argentina?

Tata – Certamente usaríamos a fábrica da Fiat. Alguns dos produtos seriam em parceria com a Fiat, outros ganhariam a marca da Fiat e outros ainda teriam a marca da Tata. Por enquanto isso ainda não foi definido. A única certeza é a de que vamos investir no Brasil. A participação da Fiat no mercado brasileiro é grande e temos muito a ganhar com uma parceria com eles. Como a distribuição num país grande como o Brasil é um problema, é essencial ter uma parceria com alguém que está no país todo.

EXAME – Quando a Tata Motors vai começar a produção na Argentina?

Tata – No ano que vem. Vamos começar com picapes. Em breve os carros da Tata estarão presentes no mercado argentino e no brasileiro.

EXAME – E a Tata Steel?

Tata – A empresa também está estudando a possibilidade de montar uma fábrica no Brasil. Mas ainda estamos num estágio muito inicial dessa negociação. Poderíamos usar o Brasil para produzir matéria-prima que seria processada na Corus.

EXAME – Os planos da Tata Steel no Brasil incluem joint ventures ou aquisições?

Tata – Possivelmente joint ventures. Não temos nenhum plano para aquisições de fábricas no Brasil.

EXAME – O presidente da Corus disse que o senhor é o “chaiman da Índia industrial”. Como se sente quando dizem isso?

Tata – Não posso comentar, não acho que mereço esse tipo de definição.

EXAME – Mas o senhor é o maior empresário da Índia.

Tata – Existem outros grandes grupos no país, alguns até maiores do que o nosso em determinados mercados. Prefiro acreditar que a gente tem feito um bom trabalho de uma forma ética e que faz da Tata uma empresa diferente. Isso já é suficiente para mim.

EXAME – O Tata Group tem empresas em 54 países e exporta para mais de 120. Quantos dias o senhor fica longe de casa durante o ano?

Tata – Não fiz os cálculos neste ano, mas em 2006 eu passei 150 dias fora de Mumbai. Isso não inclui as viagens de um dia que fiz para lugares como Délhi. São 150 noites fora de Mumbai.

EXAME – Em quem o senhor se espelha e se inspira para conduzir o maior grupo de negócios da Índia?

Tata – Eu tenho dois mentores que influenciam o meu jeito de trabalhar. Um deles é o doutor Amar Boze, que produz as caixas de som. Ele é um bom amigo, uma pessoa que me ensinou muitas coisas. O outro é Henry Sharp, que já foi chairman da Lucent Technologies.

EXAME – Com quem o senhor costuma conversar antes de tomar grandes decisões? Quem são os seus conselheiros, as pessoas que o senhor confia plenamente?

Tata – Meus colegas de trabalho. Não tenho nenhum conselheiro fora da empresa.

EXAME – O que motiva o senhor?

Tata – Eu acho que a vontade de vencer e de ser bem sucedido. Mas não significa que para isso eu tenha que dirigir a empresa de forma inescrupulosa.

EXAME – O Tata Group sempre teve alguém da família à frente dos negócios. O senhor já tem alguma pessoa em mente?

Tata – Alguém vai ter que assumir os negócios quando eu me aposentar.

EXAME – Mas o senhor já tem algum nome em mente? O Noel (único integrante da família Tata que trabalho no grupo) seria um bom nome?

Tata – Acho que não, mas ainda é cedo para fazer qualquer afirmação. Poderia ser o Noel, mas também poderia não ser. Não gostaria de dar um nome agora, não seria justo com a pessoa e nem com os outros que estão na disputa pelo cargo. Obviamente tenho um senso de responsabilidade e, por isso, tenho alguns nomes em mente.

EXAME – Essa pessoa poderia ser alguém de fora da família?

Tata – A gente já teve líderes de fora da família. Mas o que realmente importa é que a pessoa escolhida tem que ser a mais preparada para assumir o cargo.

EXAME – O senhor acha que um estrangeiro poderia assumir a direção do grupo Tata?

Tata – Acho que, a princípio, não deveria ser. Só seria um estrangeiro se não houvesse nenhuma outra pessoa na Índia capacitada para o cargo. A empresa ainda não está preparada para ter um estrangeiro na direção. Quando assumi o cargo, a gente começou a ter presidentes estrangeiros, coisa que não acontecia antes. Mas o grupo ainda não está preparado para ter um chairman estrangeiro. Não estou dizendo que um estrangeiro não poderia assumir o grupo.

EXAME – O senhor é muito diferente de outros executivos indianos que levam uma vida mais luxuosa. Por que a opção por uma vida simples?

Tata – Não é uma coisa que eu escolhi, é o jeito que eu sou. Nunca parei para pensar em qual estilo de vida eu gostaria de levar. É o jeito que sou.

EXAME – A que tipo de luxo o senhor se dá o direito?

Tata – Adoro carros. Também adoro pilotar e, uma hora ou outra, vou comprar um brinquedinho. Hoje eu só posso dirigir o avião da empresa. Quero comprar um pequeno avião para poder voar.

EXAME – Quantos carros o senhor tem?

Tata – Oito. São carros de todos os tipos. Tenho roadsters, sedãs, quatro ou cinco Mercedes, um Cadillac. Escolho o que vou sair conforme a ocasião.

EXAME – Aos 69 anos o senhor nunca se casou e não tem filhos. Nunca teve vontade de formar uma família?

Tata – Já tive vontade, quase me casei três ou quatro vezes. Não deu certo por vários motivos, mas não quero entrar em detalhes (risos). Sempre quis ter uma família e sinto disso. Mas conforme você envelhece, encontrar a companhia certa fica mais difícil. Os jovens estão mais dispostos a abrir mão de coisas em suas vidas quando encontram alguém. Isso não acontece quando se tem a minha idade.

EXAME – O senhor disse que a vida de um grande empresário pode ser solitária. O senhor se sente sozinho?

Tata – Algumas decisões importantes são feitas de forma solitária. Você não pode comentar as coisas com ninguém, tem que tomar a decisão sozinho. Mais importante, você tem que assumir as conseqüências da sua decisão sozinho. Por isso a vida de um empresário pode ser muito solitária.

EXAME – O senhor já disse que pretende se aposentar nos próximos seis anos. Quais são os planos para a aposentadoria?

Tata – Tem tanta coisa que quero fazer, como voltar à arquitetura, desenhar produtos, fazer coisas que não tive tempo de fazer nos últimos anos. Um dos motivos pelos quais quero me aposentar numa idade em que eu ainda esteja ativo é porque quero conseguir fazer essas coisas. Adorava jogar golfe, mas não o faço há seis anos. Provavelmente, nos primeiros meses de aposentadoria vou passar muito tempo num campo de golfe. Não sou um bom jogador, mas amo o esporte. Hoje, não tenho tempo para ler. São tantas as coisas que adoraria fazer quando me aposentar.

EXAME – Qual vai ser o seu maior legado quando deixar o Tata Group?

Tata – Espero deixar uma empresa muito preocupada com os valores morais e éticos. Um grupo que continue atento à responsabilidade social. Ao mesmo tempo, espero deixar um grupo muito mais confiante e seguro do que quando assumi, há 17 anos. Um grupo que tenha coragem de crescer em diferentes mercados e disposto a assumir riscos para isso.

EXAME – Como o senhor gostaria de ser lembrado?

Tata – Pensar nisso é uma coisa triste. Nunca me preocupei como gostaria de ser lembrado. Mas uma coisa é certa: não gostaria de ser lembrado por alguma coisa ruim que eu tenha feito. Desde que isso não aconteça estou feliz.

2 COMENTÁRIOS

  1. Sem dúvida,um grande empresário.Principalmente quando fala sobre os valores morais e éticos,que infelizmente são tão escassos nos tempos atuais.

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