O Banco Central sinalizou em seu relatório de inflação que não conseguirá atingir a meta para este ano de 4,5%. O IPCA (Indice de Preços ao Consumidor Amplo) medido pelo IBGE e usado como referência no sistema de metas para inflação ficará em torno de 5,6% esse ano, mais de um ponto percentual acima do centro da meta, porém ainda dentro da margem de tolerância de dois pontos para cima ou para baixo (2,5% a 6,5%).

A maioria dos países que adotaram o sistema de metas tem convivido nos últimos meses com índices fora da curva e o Brasil até que apresenta variações suaves. Segundo os relatórios recentes, a guerra de expectativas em torno da inflação só será vencida quando os índices começarem a recuar a partir de meados de 2012.

Muito se especula em relação às reais causas desse recente repique inflacionário. Na verdade, trata-se de uma conjunção de vários fatores.  A alta das commodities no mercado internacional (petróleo e derivados, minério de ferro, produtos agrícolas dentre outros) é um dos consensos atuais. Os preços aumentaram significativamente no segundo semestre de 2010 e estão sendo indexados e repassados agora ao consumidor final brasileiro. Esse choque internacional deve impactar os índices inflacionários brasileiros em até 2,5% após a total absorção doméstica. Isso fará com que a convergência para o centro da meta de 4,5% só ocorra em meados de 2012. No governo parece que esse ano de 2011 está fadado ao crescimento mais baixo do PIB (em torno de 4% a 4,5%), a esse repique inflacionário e quem sabe a alta nos juros básicos (Já está virando rotina o primeiro ano de cada mandato ser marcados por alta de juros e dificuldades na condução da política econômica).

Outro fator é o descasamento entre o crescimento da demanda doméstica e a capacidade de expansão da produção ofertada. Esse componente é alimentado também pelo aumento nos níveis dos investimentos, pelo excesso de crédito e pelo aumento da renda e da formalização da economia.

O setor de serviços é um dos principais vilões, já que é influenciado diretamente pelo aquecimento da economia. E sofre rapidamente também a chamada “profecia auto-realizável” que é quando uma expectativa seja ela de aumento de preços ou não gera literalmente o aumento em si. Os itens alimentação e transporte também são unanimidade, a carne aumentou 34% esse ano, o etanol disparou e a gasolina já passa de R$ 3,00 nas bombas. De fato o dragão que dormia tranquilamente parece estar acordando. O BACEN recentemente criou índices imobiliários para aperfeiçoar as projeções de inflação, já que nas regiões metropolitanas a valorização desse setor parece insana. Os já existentes IGP’s que corrigem os aluguéis fecharam o ano passado acima de 10% e ainda não dão sinal de recuo.

Nesse momento delicado o banco central deve usar de sua autonomia e todos os seus recursos técnicos (a gestão da política econômica é auxiliada por modernos softwares de estatística e econometria) e não políticos a fim de executar a política monetária ótima para o país sem se deixar influenciar pela disputa política atual entre os ortodoxos e desenvolvimentistas do governo.

Dilma e o ministro (professor de economia da FGV) Guido Mantega integram a turma desenvolvimentista que dominou o segundo mandato do governo Lula e fez o país crescer de fato a partir de 2006, porém há ortodoxos, espécie de ouvidores de butiques bancárias liderados pelo médico?! Antonio Palocci que pregam alta nos juros e a derrubada da atividade econômica. Uma política ortodoxa de aumento de juros agradará bastante as tesourarias dos bancos e aumentará de fato a popularidade do chefe da casa civil para com os banqueiros, mas é extremamente nociva ao país especialmente no longo prazo.

Nem o mercado e o nem o BACEN hoje estão certos de que o melhor remédio será o aumento nos juros ou se bastará apenas as medidas macroprudenciais que foram utilizadas até aqui (contenção da oferta de crédito e redução da liquidez). A redução da política creditícia expansiva é fundamental no processo de convergência para o centro da meta e isso inclui os subsídios dados às empresas pelo BNDES. Recentemente o BNDES recebeu nova injeção de R$ 55 bilhões de reais para municiar suas linhas de crédito com taxas mais baixas e prazos mais longos a fim de continuar financiando e subsidiando as empresas brasileiras.

A incerteza em relação ao cenário internacional agravada pelos recentes fatores geopolíticos é ainda outro fator que assombra as projeções do BACEN. O preço do petróleo e os efeitos da tragédia no Japão ainda não foram totalmente absorvidos.

A estratégia do BC será a de ganhar tempo. Esperará o efeito das medidas macroprudenciais (que tem efeito direto sobre a demanda, mas não sobre as expectativas) e a definição do cenário internacional. Se nada disso funcionar e se o cenário externo der sinais de piora, o remédio amargo terá mesmo de ser a elevação na taxa básica. Até o momento a autoridade monetária preferiu correr riscos inflacionários se distanciando de buscar o centro da meta em pró da manutenção da taxa de crescimento do produto em torno de 4,5%.

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