Um celular, há aproximadamente dez anos atrás, tinha o dobro do peso, do tamanho e suas funções se limitavam a receber e realizar chamadas, bem como mensagens de texto. Tínhamos algumas poucas marcas no mercado, ou seja, nossas opções eram limitadas ao design, preço e umas duas ou três prestadoras, uma vez que não existia o “glorioso” desbloqueio nem o chip. Em menos de uma década é impressionante observarmos a quantidade de tecnologia agregada aos novos aparelhos.

Para ilustrar, dou meu exemplo. Recentemente decidi comprar um novo celular, pois o meu, apesar de tirar fotos, gravar vídeos, tocar músicas, ter um cartão de memória de 1 Gb, estava meio aquém de minhas necessidades … ainda que realizasse e recebesse ligações perfeitamente. Minha epopéia começou ao entrar na loja. Ao me dirigir para a seção de eletrônicos me deparei com um display de aproximadamente 3 metros de largura e 1,5 de altura, onde estavam dispostos mais de 30 tipos de celulares.

Ter muitas opções nem sempre é bom

Bem, entre pixels, memórias, dual chips, wi-fi´s, touchscreens, GPS´s, music players, celulares que se demonstravam verdadeiros canivetes suíços, demorei aproximadamente 1h para escolher o bendito celular que, a meu ver, satisfaziam minhas necessidades e estava de acordo com meu “bolso”. Digo “ a meu ver”, pois ao chegar em casa comecei comigo mesmo o seguinte diálogo : – Será que aquele modelo que tinha GPS e editor de textos não tinha um custo X benefício melhor? Afinal eram apenas alguns reais a mais. – E o que dizer daquele com a câmera de definição menor? Era o mesmo preço e tinha o editor de textos e o que comprei só os visualiza…. eu nem tiro tantas fotos assim. – Será que precisava disso tudo de memória mesmo? Enfim, o que sei é que esse diálogo não ocorreu com toda essa intensidade, há uns oito anos atrás, quando comprei o meu “tijorola” com o visor verde e cujo toque era igual um despertador de relógio do Paraguai.

Coincidentemente, dias depois, vi uma palestra do ilustríssimo Psicólogo Barry Schwartz sobre seu livro “ The Paradox of Choice” – “O Paradoxo da Escolha” e me surpreendi com a visão do autor para a realidade das opções que temos hoje.

Para Schwartz o paradigma oficial que temos é que, para maximizar nosso bem-estar é necessária a maximização das opções; e isso não é necessariamente correto. Os benefícios são claros: liberdade de escolha, facilidades, aumento da concorrência, etc. Porém, segundo Schwartz, a grande variedade de escolhas faz com que as pessoas se sintam, da mesma forma, mal consigo.

A quantidade excessiva de opções produz paralisia ao invés de tomada de decisão. Tomo aqui a liberdade de mencionar um trecho do comediante Bruno Motta. Quando vamos almoçar naquela famosa rede de restaurante de massas que todos sabem a qual me refiro, e temos que escolher o molho, o acompanhamento, os diversos tipos de temperos, ervilha, pimenta, cebola, alho, orégano mais de vinte ingredientes para escolha, rola aquela pressão … e o pessoa da fila atrás de você olhando! Aí você põe milho, pensa, olha, olha, pensa e aí… põe mais milho!

Enfim, a maioria das pessoas, diante de tantas opções não consegue tomar decisões, pois ficam paralisadas quando se deparam com o elevado número das mesmas.

Outro resultado apontado por Schwartz é a culpa, uma vez que, devido à quantidade de opções que temos, nos perguntamos, como no caso de meu celular: “Será que eu poderia ter feito uma escolha melhor? Na grande maioria da vezes a resposta é “acho que sim”. Há dez anos atrás, o meu celular não era o melhor, mas era o que tinha. Se não fiquei satisfeito com a qualidade do visor ou do som do toque, era porque era o que tinha disponível e isso é aceitável. Hoje, se não fiquei satisfeito é porque EU escolhi errado, pois o raciocínio é: “Dentre mais de 30 tipos de celulares disponíveis ali, sem considerar as demais lojas; com todos os planos possíveis, com certeza a escolha de um deles teria que ser a escolha perfeita para mim” e a realidade é que ela quase nunca é a perfeita. Assim, ficamos menos satisfeitos com a escolha feita quando há muitas opções do que quando não temos as mesmas.

Schwartz conclui apresentando o papel negativo das elevadas expectativas diante da grande variedade de opções. Isso porque segundo o autor, quanto maior for a quantidade de opções, mais elevada será expectativa sobre o resultado da mesma, e quanto mais elevada for essa expectativa, menor a possibilidade de que ela seja satisfeita. Liberdade é um dos pilares da sociedade moderna, porém, nem sempre essa liberdade nos proporciona o bem-estar esperado da mesma.

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